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“EU SOU PROFESSORA, NÃO SEI ATIRAR”, DISSE ELA, ENTRE LÁGRIMAS, OUVINDO OS TIROS DE SUZANO.




A frase é de uma professora universitária que buscou hoje, pelo meio dia, a sua filha na escola, enquanto ouvia no rádio as notícias sobre o horror na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano. Na porta da escola, ela secou as lágrimas e avistou Clarinha, derramando-se: “vem filha!”. A frase teve novo sentido diante daqueles dez mortos, dos vários feridos, do horror dos meninos fugindo dos tiros, do inferno dos pais ligando para o celular que não responde, dos outros tantos atordoados em frente à escola.

Marcella não sabe atirar, porque aprendeu, por talento e vocação, que o futuro não se constrói com armas, mas com lápis e livros, educação e conhecimento. E talvez seja por isso que ela sabe, como ninguém, a gravidade da tragédia paulista. Lá, a escola pública, essa instituição socialmente central e eticamente imprescindível, morreu um pouco, com os seus alunos, vítima das chacotas públicas, da falta de incentivos, da ineficiência dos governos, das falas condenatórias e vexatórias do presidente e seus ministros, envolvidos em intrigas palacianas e empenhados em desinformar a população. Nunca na história brasileira (e talvez mundial), a Escola foi tão desvalorizada e atacada por meio da criminalização de seus principais agentes, os professores. A fala condenatória que culpabiliza os docentes, é a mesma que leva aos ataques da escola.

Enquanto assistimos o desmonte do ministério da educação, tomado por pessoas indicadas por um pseudo-intelectual defensor de armas e morador da Virgínia, cujo único [des]serviço à nação tem sido indicar gente incapacitada para os cargos de alto escalão do ministério da educação, além de postar barbaridades nas redes sociais... enquanto isso, choramos pelas vítimas de Suzano, certos de que esta dor esconde outros culpados, outras ameaças e outros perigos.

Em outro momento essa gente seguiu o presidente norte-americano, de quem se dizem fãs irrevogáveis e de quem aprendem suas lições de ódio e intolerância, afirmando que o único jeito de combater a violência nas escolas era armando os professores. Enquanto isso, aqui, a flexibilização das armas, proposta pelo ex-juiz-agora-ministro junto com o perdão prévio a quem cometer homicídios, coloca as armas erradas nas mãos de nossos jovens...


Marcella tem razão: o professor não aprendeu a portar armas e atirar contra outro ser humano. A escola deveria ser um lugar de paz e de respeito. É isso que o presidente e os seus ministros deveriam aprender e incentivar.

Comentários

  1. Texto imprescindível no combate a violência.

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  2. Hoje meus alunos do sexto ano do fundamental II me ajudaram a descobrir o seguinte. Quando um assassino chega a matar fisicamente como o fez os de Suzano é porque no seu coração (ou se de o nome que queira se dar para a intimidade do próprio eu) há muito já havia liquidado o outro para viver em um mundo habitado apenas pelo eu.
    O pior no entanto não é isso.
    Uma sociedade que aceita semelhante massacre em silêncio ou resignadamente é uma sociedade que já fez da cultura da morte sua constituição política.

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